sexta-feira, julho 30, 2004

De um deus chamado rio ou o tempo dos fundamentalismos em 7 cenas

FADE IN:

1. EXT./ FINAL DE UMA TARDE DE OUTONO – CAFÉ PARAÍSO

Deus, assobiando. Amassado pela inércia da tarde, decide-se pela criação. Fuma cigarrilha, escrevinha numa folha de papel pardo. Diletantemente, folheia o labirinto das notícias do jornal e tricoteia uma SMS.

SUPER – Vou tornar-me rio. Um rio que perpasse todas as cidades e muros. Em flor, enfim, toda a humanidade. Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.

DEUS
(sorrindo)
Líquido, é o fim…

Deus fecha o jornal e ensovaca-o. Ergue-se lentamente. Afasta-se, subindo a calçada em direcção ao sol alaranjado de fim de tarde.

CUT TO:
2. INT./ ANOITECER – QUARTO DE DEUS

A janela está aberta. Torna-se fácil o câmbio de uma corrente de ar que faz sussurrar um espanta-espíritos. O quarto é animado por sombras que vão desaparecendo à medida que a luz do dia se extingue. Deus está nu, deitado no chão por cima de uma manta peruana.

Embalado pelo sussurrar do espanta-espíritos, Deus adormece.

3. EXT./ AMANHECER – RUA CORPO DE DEUS

Duas folhas de parra bailam ao vento, em frente a um muro já rendido ao tempo, de tão degradado aspecto. No muro está afixada uma placa verde.

SUPER – Rua Corpo de Deus

Um automóvel em andamento, vindo da esquerda.
As duas folhas de parra bailam ao vento.
Um automóvel em andamento, vindo da direita.
O carro da esquerda acelera.
O carro da direita acelera.
As duas folhas de parra bailam. Ouve-se um estrondo.
CUT TO:
4. INT/. AMANHECER – QUARTO DE DEUS

A portada da janela bate com a força do vento da manhã. Deus desperta.

CUT TO:
A manta peruana ilustra o chão de madeira. O espanta-espíritos sussurra. Ouve-se a água do duche a correr e o ruído do rádio-despertador mal sintonizado.

CUT TO:
Deus está sentado numa cadeira de palha na varanda. Rói uma maçã vermelha. Sorri. Folheia um livro.

SUPER – Margarita e o Mestre, Mikhail Bulgakov (em russo)

Pousa o livro e resgata o telemóvel. Escreve uma SMS.

SUPER – É hoje. O dia maior que os dias. Deus torna-se rio…

Pega novamente no livro e folheia-o. Lê atentamente a epígrafe. Completa a SMS.

SUPER – “Quem és tu, afinal? Sou parte daquela força que eternamente quer o mal e eternamente quer o bem” (Goethe, Fausto). Enviar. Número de telefone. A enviar mensagem.

CUT TO:
5. INT./ TARDE – CASA DE DEUS

Deus coloca mochila negra às costas e sai de casa. Bate a porta e chama o elevador.
CUT TO:
6. EXT./ TARDE – CENTRO DA CIDADE

Ouve-se uma voz que parece ecoar por toda a cidade. É a voz de Deus

DEUS
É o fim trágico de um deus. O nascimento imparável de um rio.

CUT TO:
7. INT./ TARDE – CAFÉ PARAÍSO

Uma mão sintoniza um rádio, passando por vários noticiários simultâneos.

LOCUTOR/LOCUTORA
Atentado em…
Bombista suicida provoca 12 mortos e…
A resposta armada já se fez ouvir…

FADE OUT


segunda-feira, julho 19, 2004

O deus anoitecido de Mukavel


 
Ondulava Lusa, com seus pés de tamborzinho ritmado, por entre a noite cantada da selva. A aldeia de colmo silencioso pendurada no estalar da fogueira de lua e mar. Ao fundo os gambozinos e outros dissabores sonhados que tais.
 
Emolduradas no azul nocturno, as derradeiras ossadas do que se contava terem sido os botes de muita viúva trazida ao mundo. Dezenas de carcaças de madeira que o tempo soprou cascas de noz anoitecidas num desígnio quase arqueológico. E nessa peste de cheiro salgado por certo a pele se engalinhava pela quasi-presença de um novo olhar.
 
Lusa era ânsia soluçante. Atentara no esplendor da tarde passada: Mukavel chegara de bicicletar. Nesse instante, de corpo entornado em suor, pousou aquele deus embrulhado em lona mixuruca. Logo o assento de erva selvática e terra batida se viu convertido em templo ou ilha de admiração.
 
Mukavel, tornado Messias do embrulho, não desvendou logo os olhos da curiosidade. E pregou do alto do seu corpo de colibri esfomeado.
 
- Dentro daquele saco trago novos olhos para toda a gente…
 
A aldeia tresandava a murmúrio. Mukavel, inesperado propagandista, retorquiu.
 
- Quem gostar dos novos olhos, compra! Quem não gostar, cega!
 
Assim animado, converteu palhota em escritório de peregrinação. Para experimentar os novos olhos Mukavel cobrava. Podia ser em moeda, galinha ou favor a prestar. Estratégia para valorizar o produto e agigantar a expectativa.
 
À porta da palhota rentavelmente milagrosa engrossaram as gentes. Os carreiros transbordaram e os estômagos não almoçaram para ver com outros olhos.
 
Lusa desconfiava. Mukavel impusera o total sigilo – se é que pode existir o parcial – aos peregrinos pagadores. Forma esperta de não afastar a possível clientela. E assim Lusa – não pagadora – via proibir-se esse novo mundo do olhar.
 
Ao fim de tardias horas de consulta e de crédito, Mukavel decretou perante o fascínio generalizado.
 
- Logo à noite, ESPECIALMENTE – fez questão de erguer o braço e a voz – há consulta para todos… GRATUITAMENTE… – empenho do mesmo jeito empolgado de quem já folgou o bolso – Quando o sol terminar, consulta para a gente…
 
A aldeia desunhou-se pela refeição antecipada. De modo algum, a falta à comunhão sob as estrelas e a noite cantada do mato. Assim se profetizou, assim se cumpriu.
 
Findo o sol, Mukavel descobriu para todos o novo deus. A noite de gente arqueou-se. A partir daí, proibiu-se a palavra e decretou-se o ronronar único da fogueira ante a sombra de Mukavel.

 
A aldeia fez-se silêncio. O deus fez-se televisão.